quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Filosofia popular

ANTÓNIO Fernandes ALEIXO nasceu em Vila Real de Santo António a 18 de Fevereiro de 1899. Faria hoje, portanto, 111 anos, número bonito para lhe dedicar a minha homenagem.

Com uma ironia poética acutilante, sabia ir beber à sua humilde vida ideias cheias de conteúdo crítico em estrofes de apenas 4 versos.

Admiro este génio algarvio. Por isso aqui ficam algumas das suas obras de arte. Comecemos por um soneto e vamos admirando as quadras, depois.

Ser Doido-Alegre, que Maior Ventura!

Ser doido-alegre, que maior ventura!
Morrer vivendo p'ra além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Que nem na morte crê, que felicidade!

Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola, a falsa caridade,
Que bem no fundo é só vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.

Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem
De ver no purgatório um paraíso ...

Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai quem me dera ser doido também
P'ra suportar melhor quem tem juízo.


Quadras soltas

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Vinho que vai p'ra vinagre,
Não retrocede o caminho.
Só por obra de milagre,
Volta de novo a ser vinho.

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'Stá na mão de toda a gente
A felicidade, vê lá!...
E o homem só 'stá contente
No lugar onde não está.

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Não há nenhum milionário
Que seja feliz como eu:
Tenho como secretário
Um professor do liceu.

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De vender a sorte grande,
Confesso, não tenho pena;
Quer a roda ande ou desande,
Eu tenho sempre a pequena.

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Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço
Que, sem parecer o que são,
São aquilo que eu pareço.

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És feliz, vives na alta
E eu de ratos como a cobra.
Porquê? Porque tens de sobra
O pão que a tantos faz falta.

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Quem nada tem, nada come;
E ao pé de quem tem comer,
Se disser que tem fome,
Comete um crime, sem querer.

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Eu não tenho vistas largas
Nem grande sabedoria,
Mas dão-me as horas amargas
Lições de Filosofia.

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P'ra a mentira ser segura
E atingir profundidade,
Tem de trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.

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Que importa perder a vida
Em luta contra a traição,
Se a razão, mesmo vencida,
Não deixa de ser Razão.

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Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do Mundo,
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo.

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Uma mosca sem valor
Poisa c’o a mesma alegria
Na careca de um doutor
Como em qualquer porcaria.

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Fui polícia, fui soldado,
Estive fora da nação;
Vendo jogo, guardo gado,
Só me falta ser ladrão.

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Co'o mundo pouco te importas
Porque julgas ver direito.
Como há-de ver coisas tortas
Quem só vê o seu proveito?

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À guerra não ligues meia,
Porque alguns grandes da terra,
Vendo a guerra em terra alheia,
Não querem que acabe a guerra.

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Não é só na grande terra
Que os poetas cantam bem:
Os rouxinóis são da serra
E cantam como ninguém.

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Ser artista é ser alguém!
Que bonito é ser artista...
Ver as coisas mais além
Do que alcança a nossa vista!

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Nunca gostei de mentir,
Mas faço bem quando minto,
Fazendo a outros sentir
Esp'ranças que já não sinto.

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Para não fazeres ofensas
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.

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O mundo só pode ser
Melhor que até aqui,
Quando consigas fazer
Mais p'los outros que por ti!

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Até nas quadras que faço
Aos podres que o mundo tem,
Sinto que sou um pedaço
Do mesmo podre também.


António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

4 comentários:

Anónimo disse...

Uma pequena e merecida homenagem a um grande Português.
Os versos de Aleixo continuam tão actuais e verdadeiros... eu também desejava ser louca para conseguir suportar os ajuízados que andam por este mundo!!
Haja loucura, senhores

AGRIDOCE disse...

Anónimo,

Nada de discriminações, agora que chegámos ao ano de 2010!

Haja loucura... senhoras e senhores.

xistosa - (josé torres) disse...

Grande poeta popular.
Li tudo o que escreveu e foi publicado, desde Autos até Inéditos, passando por este "Livro que vos deixo".
A simplicidade no seu verdadeiro esplendor.

Um abração.

Anónimo disse...

Alguém em Monção, em 76, escreveu no meu pequeno Diário a quadra de Aleixo:"Eu não tenho vistas largas, nem grande sabedoria, mas dão-me as horas amargas, lições de filosofia".Tinha eu 12 anos. Ainda o tenho.