sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Ficção



Naquele dia, em que entrando pelos teus olhos te ofusquei o coração, bateste à porta do meu e arrendaste-lhe todo o espaço disponível.

Há quanto tempo!

Os dias foram sendo sempre sofregamente vividos.

Umas vezes apenas pelas nossas almas que comunicavam com o melhor instrumento sem fios que tivemos - o amor - forte e de uma energia tal que qualquer outro aparelho depressa se derreteria sem apelo.

Outras, viajávamos pela nave mais rápida que o homem ainda não construiu, quando caíamos em cada uma das nossas células, vivendo séculos em segundos, e atravessámos os nossos universos até aos confins do infinito, onde vimos galáxias de maravilhosas cores inexistentes, estrelas onde dançávamos ao som dos blues que ainda não foram produzidos, pousávamos em planetas puros para descansarmos das horas das viagens que estavamos a encetar e poder, ao fim de alguns minutos, retomá-las sem nunca darmos carta de alforria aos segredos sussurrados sem uma única palavra, aos choques eléctricos que recebíamos quando nos tocávamos sem parar.

Ao fim de cada viagem, ficava-nos a certeza do recomeço no momento seguinte, incansáveis.

Mas o tempo passou e tudo foi sendo posto em causa. Ao amor, puro, juntou-se-lhe o egoísmo.

Dos sentimentos, pouco mais restam que cinzas a toldar a relação, saídas de um vulcão que ainda continua activo, vomitando lava escaldante montanha abaixo, como se fosse água cristalina a rolar pela face, afogando a tua ausência, em cada noite desta vida de tormento.

De manhã, o despertador toca em rotinas diárias sem fim.

Acordo.

Então vejo que mais um pesadelo passou.

A vida assim não existe.

É ficção!

8 comentários:

Gi disse...

Cristalinas são as palavras que nos deixas, lava o amor que delas brota. Um pesadelo que apetece se repita todas as noites. Gostei muito desta tua ficção, desta tua chama. E gostei do Barry White, ele também costumava incendiar as minhas noites :)

beijinhos, bom fim de semana

AGRIDOCE disse...

GI,

Estou a gostar deste teu novo avatar. Mais personalizado?!

Bjs, com duplicado de bom fim de semana.

Gi disse...

Quase fecho os olhos quando rio com gosto, mas sou assim mesmo :)
a trança quase não se nota mas também não faz grande diferença :)
Beijinhos

xistosa disse...

Há sonhos que são realidades etéreas e diáfonas.
Mas ao alvorecer esfumaram-se, deixando o perfume e um factício que nos confunde.
O despertador é o pesadelo, não o que se passou antes.
A ficção (não a mentira - mas até talvez esta, não seja tão crua) e ainda bem, faz parte da vida.
É a ilusão que nos move.

AGRIDOCE disse...

GI,
Ah, os olhos acompanham o sorriso da alma?!
Trança??? Não se vê mesmo. Também, com uma foto tão miniatura,não é fácil ver. Mas deixa estar pequena, pelo menos no blogue. Fazes bem.
Bjs

AGRIDOCE disse...

XISTOSA,

Cheio de razão como sempre.

Mas neste caso, é só mesmo ficção.

Abraço

maria faia disse...

Espero que seja ficção a parte final, desde o egoísmo se ter juntado ao amor puro.

AGRIDOCE disse...

Olá Maria Faia,

É tudo ficção. Esta vida de humano não passa mesmo de ficção. Nós é que pensamos que não é assim. Mas é.